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Partilha um poema! Options
Ahimsa
Posted: Monday, August 24, 2009 2:06:01 PM

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Olá,

No seguimento do post da Sky (vide: http://forum.thefreedictionary.com/postst3106_Frases-de-amor.aspx), ocorreu-me desafiar os participantes a partilhar um poema.

Vale tudo: sonetos, cantigas de amigo, cantigas de escárnio e maldizer, odes, o que seja e todos os autores, todas as épocas. Tem, é claro, de ser em português.

A poesia é a sublimação da língua e deve ser partilhada!

P.S. Por favor não se esqueçam de indicar o autor.

To have another language is to possess a second soul. Charlemagne (742-814 A.D.)
Ahimsa
Posted: Monday, August 24, 2009 2:08:25 PM

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Aquela triste e leda madrugada - Luiz Vaz de Camões

Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade
quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar se de ua outra vontade,
que nunca poderá ver se apartada.

Ela só, viu as lágrimas em fio,
que, de uns e d'outros olhos derivadas,
s'acrescentaram em grande e largo rio.

Ela viu as palavras magoadas
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso às almas condenadas.

Luis de Camões

To have another language is to possess a second soul. Charlemagne (742-814 A.D.)
sklinke
Posted: Friday, August 28, 2009 4:33:49 AM
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Excelente tópico, vamos participar!

Minha contribuição é uma pérola do Fagundes Varela, um pouco esquecido na atualidade (http://pt.wikipedia.org/wiki/Fagundes_Varela).



Névoas


Nas horas tardias que a noite desmaia
Que rolam na praia mil vagas azuis,
E a lua cercada de pálida chama
Nos mares derrama seu pranto de luz,

Eu vi entre os flocos de névoas imensas,
Que em grutas extensas se elevam no ar,
Um corpo de fada — sereno, dormindo,
Tranqüila sorrindo num brando sonhar.

Na forma de neve — puríssima e nua —
Um raio da lua de manso batia,
E assim reclinada no túrbido leito
Seu pálido peito de amores tremia.

Oh! filha das névoas! das veigas viçosas,
Das verdes, cheirosas roseiras do céu,
Acaso rolaste tão bela dormindo,
E dormes, sorrindo, das nuvens no véu?

O orvalho das noites congela-te a fronte,
As orlas do monte se escondem nas brumas,
E queda repousas num mar de neblina,
Qual pérola fina no leito de espumas!

Nas nuas espáduas, dos astros dormentes
— Tão frio — não sentes o pranto filtrar?
E as asas, de prata do gênio das noites
Em tíbios açoites a trança agitar?

Ai! vem, que nas nuvens te mata o desejo
De um férvido beijo gozares em vão!...
Os astros sem alma se cansam de olhar-te,
Nem podem amar-te, nem dizem paixão!

E as auras passavam — e as névoas tremiam
— E os gênios corriam — no espaço a cantar,
Mas ela dormia tão pura e divina
Qual pálida ondina nas águas do mar!

Imagem formosa das nuvens da Ilíria,
— Brilhante Valquíria — das brumas do Norte,
Não ouves ao menos do bardo os clamores,
Envolto em vapores — mais fria que a morte!

Oh! vem; vem, minh'alma! teu rosto gelado,
Teu seio molhado de orvalho brilhante,
Eu quero aquecê-los no peito incendido,
— Contar-te ao ouvido paixão delirante!...

Assim eu clamava tristonho e pendido,
Ouvindo o gemido da onda na praia,
Na hora em que fogem as névoas sombrias
– Nas horas tardias que a noite desmaia.

E as brisas da aurora ligeiras corriam.
No leito batiam da fada divina...
Sumiram-se as brumas do vento à bafagem,
E a pálida imagem desfez-se em — neblina!
Ahimsa
Posted: Tuesday, September 1, 2009 2:24:25 PM

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No teu poema - José Luis Tinoco (1976)

No teu poema
existe um verso em branco e sem medida,
um corpo que respira,
um céu aberto,
janela debruçada para a vida.

No teu poema
existe a dor calada lá no fundo,
o passo da coragem em casa escura,
e aberta, uma varanda para o mundo.

Existe a noite,
o riso e a voz refeita à luz do dia,
a festa da Senhora da Agonia
e o cansaço do corpo que adormece em cama fria.

Existe um rio,
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco, a raiva e a luta de quem caiou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema
existe o grito e o eco da metralha,
a dor que sei de cor mas não recito
e os sonhos inquietos de quem falha.

No teu poema
existe um canto chão alentejano,
a rua e o pregão de uma varina
e um barco assoprado a todo o pano.

Existe um rio
o canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra e um só destino
a embarcar no cais da nova nau das descobertas

Existe um rio,
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco, a raiva e a luta de quem cai ou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte

No teu poema
existe a esperança acesa atrás do muro,
existe tudo o mais que ainda escapa
e um verso em branco à espera de futuro.

To have another language is to possess a second soul. Charlemagne (742-814 A.D.)
sklinke
Posted: Saturday, September 5, 2009 3:41:10 AM
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Puxa, só eu e a Ahimsa gostamos de poema?

Cadê todo mundo?

Minha contribuição a seguir é de um dos meus favoritos, Carlos Drummond de Andrade. E o poema é um clássico:


Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Applause
Ahimsa
Posted: Thursday, September 10, 2009 1:53:26 PM

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Para o Gil.

Liberdade - Fernando Pessoa

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca…

Liberdade - Fernando Pessoa (João Villaret): http://www.youtube.com/watch?v=EpiP6GBwNvU

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Gil
Posted: Friday, September 11, 2009 8:54:28 PM

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Ahimsa, obrigado. Me dedicarem um poema do Pessoa, 'tô feliz e bobo pro resto do mês. Minha contribuição vem das ruas do Brasil... Se dá pra chamar alguém de "etéreo", seria ele.


OS POEMAS

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

Mario Quintana - Esconderijos do Tempo
sklinke
Posted: Wednesday, September 16, 2009 9:35:25 PM
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Ah, Mário Quintana... Muito bom!


Queria agora trazer um tipo diferente de poesia. A poesia concreta. Sou uma grande fã (por isso desconfiem se eu elogiar muito).

Conheçam o projeto verbivocovisual no site: http://www.poesiaconcreta.com.br


Infelizmente não consigo adicionar as imagens de alguns exemplos aqui. Mas vale a pena conferir.
Ahimsa
Posted: Thursday, September 17, 2009 6:45:25 AM

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Sky,

A hiperligação que enviou é muito interessante.
É uma poesia que se vê e que se sente, para além das palavras, muito curioso.

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Ahimsa
Posted: Monday, September 21, 2009 5:36:16 AM

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Olá,

Esta semana decidi contribuir com uma autora brasileira, já que este poema, virado fado pelo Custódio Castelo, não me sai da cabeça!


Improviso do Amor-Perfeito - Cecília Meireles

Naquela nuvem, naquela,
mando-te meu pensamento:
que Deus se ocupe do vento.

Os sonhos foram sonhados,
e o padecimento aceito.

E onde estás, Amor-Perfeito?
Imensos jardins da insônia,
de um olhar de despedida
deram flor por toda a vida.

Ai de mim que sobrevivo
sem o coração no peito.
E onde estás, Amor-Perfeito?

Longe, longe,
atrás do oceano que nos meus se alteia
entre pálpebras de areia…
Longe, longe… Deus te guarde

sobre o seu lado direito,
como eu te guardava do outro,
noite e dia, Amor-Perfeito.

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sklinke
Posted: Tuesday, September 22, 2009 9:39:55 PM
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Minha contribuição vem de uma música da Cesária Évora:


Sabor de pecado
Cesaria Evora

Na ponta di bos lábios
Tem fogo di amor
Tem mel di abelha
Tem paixão tem calor
Tem tentaçon di maçã
Tem sabor di pecado
Bos bejos tem
Doçura e mister

Cond na nha peito um' ta pertob
Um' ta sinti bo coraçon batê
Bôs lábios ta abri pa seduzim'
Bô corpo ta estremece
Na nhas braços di cretcheu

Ta pidi carícia e amor
Ta pidi Deus pa dam' força
Pam' ninado e amabo na lei
Gil
Posted: Friday, September 25, 2009 5:42:46 PM

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sklinke, trata-se de um dialeto?
Seja o que for, é de afeto.
Esse, assim, é o meu predileto.

Opa, acho que fiz um poema!
Inspirado, usei o afeto como tema...
Viva feliz, esse é o meu lema!

Autor: Gil Dancing
sklinke
Posted: Saturday, September 26, 2009 9:31:49 PM
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Applause

Então você também tem dons de poeta?

Muito bom!


E aqui segue um trechinho da Lira I, de "Marília de Dirceu", de Tomás António Gonzaga (outro clássico!):

Os teus olhos espalham luz divina,
A quem a luz do Sol em vão se atreve:
Papoula, ou rosa delicada, e fina,
Te cobre as faces, que são cor de neve.
Os teus cabelos são uns fios d’ouro;
Teu lindo corpo bálsamos vapora.
Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora,
Para glória de Amor igual tesouro.

Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
Ahimsa
Posted: Thursday, October 22, 2009 6:31:38 AM

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Este Inferno de Amar - Almeida Garrett

Este inferno de amar - como eu amo! -
Quem mo pôs aqui n’alma… quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando, ai, quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… - foi um sonho -
Em paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar…
Quem me veio, ai de mim, despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei… dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não o sei;
Mas nessa hora a viver comecei…

Bio: João Batista da Silva Leitão de Almeida Garret (1799-1854) autor da obra inicial do Romantismo português, que se destacou ainda na prosa (Viagens na Minha Terra...), teatro (Frei Luís de Sousa) e na política.

To have another language is to possess a second soul. Charlemagne (742-814 A.D.)
sklinke
Posted: Thursday, October 22, 2009 11:41:24 PM
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Os poemas mais bonitos são bem antigos.

Será que a vida moderna nos fez perder o dom da criação de obras tão belas?

sklinke
Posted: Thursday, October 22, 2009 11:43:25 PM
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Os sonetos do Vinícius são maravilhosos...




SONETO DA FIDELIDADE

Vinícius de Morais

De tudo, meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Ahimsa
Posted: Friday, October 30, 2009 4:43:08 PM

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Sky,

Para contrariar que os poemas antigos são os mais bonitos... Whistle

Cavalo à solta - Ary dos Santos

Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.

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sklinke
Posted: Friday, November 6, 2009 2:56:35 AM
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Ok, você venceu. Bonito mesmo!!!



Aqui segue uma letra de música do Cazuza... Cantamos tanto os "segredos de liquidificador" sem, na verdade, entender o que significava!

Codinome Beija-Flor
Cazuza
Composição: Cazuza / Ezequiel Neves / Reinaldo Arias

Pra que mentir
Fingir que perdoou
Tentar ficar amigos sem rancor
A emoção acabou
Que coincidência é o amor
A nossa música nunca mais tocou...

Pra que usar de tanta educação
Pra destilar terceiras intenções
Desperdiçando o meu mel
Devagarzinho, flor em flor
Entre os meus inimigos, beija-flor

Eu protegi o teu nome por amor
Em um codinome, Beija-flor
Não responda nunca, meu amor
Pra qualquer um na rua, Beija-flor

Que só eu que podia
Dentro da tua orelha fria
Dizer segredos de liquidificador

Você sonhava acordada
Um jeito de não sentir dor
Prendia o choro e aguava o bom do amor
Prendia o choro e aguava o bom do amor
Ahimsa
Posted: Tuesday, November 10, 2009 10:12:54 AM

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Por aqui, terras lusas, chega o frio outonal, por isso vamos lá aquecer!

Amor Vivo - Antero de Quental

Amar! Mas dum amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma douda cabeça escandecida...

Amor que viva e brilhe! Luz fundida
Que penetre o meu ser – e não só beijos
Dados no ar – delírios e desejos –
Mas amor... dos amores que têm vida...

Sim, vivo e quente! E já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...

Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?

To have another language is to possess a second soul. Charlemagne (742-814 A.D.)
sklinke
Posted: Monday, November 16, 2009 12:57:25 AM
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Já aqui, os jacarandás estão colorindo a cidade.


Então, aproveitando o tema...

Extraído do blog "O sítio do poema", de Licínia Quitério:



JACARANDÁ

Corridas as estradas
de chumbo e oiro e assombração
Silenciado o restolhar das follhas
nos pátios interiores
Sepultados os cães vadios
sob a raiva dos transeuntes de domingo
Apagadas as cores
das línguas maternais
nos discursos dos guardiões do templo
Vendida a onda verde das searas
e ninguém a reclamar colheitas
Perdidos os olhos vítreos da boneca
Afogadas em jarras as rosas de toucar

Sentada agora estou
- ou assim me vejo -
no sorriso lilás do jacarandá
florindo os dedos longos da idade

O nome decerto lhe foi dado por vozes quentes, tropicais. Só cantando o podemos dizer, a saborear-lhe as sílabas, prolongando a alegria da tónica: Ja-ca-ran-dáá. As flores brotam, triunfantes, decididas, a pincelar o negro dos braços nus. Dizem li-láás nos nossos olhos, na sala de espera de mais um verão. Retiram-se, discretas, quando o recorte verde das folhas se anuncia. Todos os anos as procuro nas velhas ruas da cidade. Receio que um dia lá não estejam. Quero que fiquem para contar do meu sorriso sazonal e da minha voz dizendo a quem passa: Vejam como estão lindos. Já floriram os ja-ca-ran-dáás!!
Ahimsa
Posted: Tuesday, November 24, 2009 9:35:36 AM

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Olá,

O tópico sobre o Acordo Ortográfico e o amor à língua, à palavra, fez-me lembrar este poema.
Dedico-o, a si, Vagner! :)



As Palavras - Eugénio de Andrade

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?



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sklinke
Posted: Tuesday, December 8, 2009 1:12:33 AM
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Homenagem à nossa língua:


Língua Portuguesa

Olavo Bilac


Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
sklinke
Posted: Sunday, January 3, 2010 10:36:31 PM
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O Miguel Falabella disponibilizou em seu site gravações de poetas famosos.

Se em vez de somente ler um poema, vocês também estejam dispostos a ouvi-lo, acesse o site:

http://www.miguelfalabella.com.br/poetas/index.html

Clique em Poetas - I ou Poetas - II e escolha o seu poeta.

Muito bonito Angel
Ahimsa
Posted: Friday, March 5, 2010 5:33:20 PM

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Oi!

Eis-me de volta!
Apesar do tempo chuvoso que se faz sentir aqui na capital Lusa, há um prazer sem nome nos meus passeios por esta cidade que me é tão querida. Numa homenagem a essa cidade, aqui fica um poema escrito por um homem que amava esta Lisboa tão dele, tão nossa.


Um homem na Cidade - Ary dos Santos

Agarro a madrugada
como se fosse uma criança,
uma roseira entrelaçada,
uma videira de esperança.

Tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem, por força da vontade,
de trabalhar nunca se cansa.

Vou pela rua desta lua
que no meu Tejo acendo cedo,
vou por Lisboa, maré nua
que desagua no Rossio.

Eu sou o homem da cidade
que manhã cedo acorda e canta,
e, por amar a liberdade,
com a cidade se levanta.

Vou pela estrada deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresce na vela da canoa.

Sou a gaivota que derrota
tudo o mau tempo no mar alto.
Eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.

E quando agarro a madrugada,
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada,
um malmequer azul na cor,
o malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém,
o malmequer desta cidade
que me quer bem, que me quer bem.

Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também,
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem,
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis, que me quer bem


Um homem na Cidade - Ary dos Santos - cantado por Carlos do Carmo

http://www.youtube.com/watch?v=TrJe5FYlVZY

Linda Lisboa, não é?

To have another language is to possess a second soul. Charlemagne (742-814 A.D.)
sklinke
Posted: Tuesday, March 9, 2010 2:59:11 PM
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O poema abaixo é simples, mas quantas vezes não encontramos uma pedra no meio do caminho?



No meio do caminho (Carlos Drummond de Andrade)


No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra
Ahimsa
Posted: Wednesday, March 10, 2010 5:36:29 PM

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Applause Muito interessante, simples, mas genial.

No entanto, para mim a repetição da pedra no meio caminho, fez-me lembrar, assim de forma mais aguda, de uma "pedra no sapato", daquelas que incomodam até à obsessão.

Mas como disse, genial!

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Ahimsa
Posted: Friday, March 19, 2010 10:57:57 AM

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Cântico negro - José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


To have another language is to possess a second soul. Charlemagne (742-814 A.D.)
sklinke
Posted: Sunday, March 21, 2010 7:54:24 PM
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Que tal um poema infantil?

Este é de Margarida Ribeiro, extraído do site http://www.blocosonline.com.br, e brinca com a nossa gramática.



A FORMÍGRAFA

Formigavam as formigas
de um buraquinho no chão
todas muito direitinhas
numa fila perfilada
que contornava o torrão.
Eis senão quando uma delas,
sem motivo, nem razão,
deu dois passos de guinada
e mudou de direcção.

Foi a fila para um lado
e a formiga dissidente
para outro bem diferente.

E assim, sem companhia,
num andar desassombrado,
caminhou até achar
o abrigo de um telhado.

Devagar, mas persistente,
galgou, cansada, um degrau,
marinhou por um sobrado,
contornou uma cadeira,
subiu a perna da mesa
e pousou sobre um papel
onde havia quatro versos
que a prenderam como mel.

Era ali que queria estar
e acabar o seu dia
entre as curvas dançarinas
das letrinhas elegantes.

Queria ser caligrafia.

Pensou ,talvez, ser acento.

Mas um grave, nem pensar.
e agudo muito menos...
Não suportava a tortura.
De tanto se inclinar
ficava numa tontura.

Com um jeito de coluna
podia ser circunflexo.
Mas a torção era um excesso!

Podia, se bem quisesse
pôr um ar mais donairoso,
ser um til bem saboroso...

E deitada, bem esticada
tornava-se travessão...

Mas não gostava de nada.
Não achava a vocação.

Foi então, desanimada,
que parou no fim da linha,
encolheu-se, redondinha,
a sentir-se uma falhada.

E assim adormeceu.

Vai daí chega o poeta
que fora dar um passeio
a espairecer a cabeça
do desespero de ter
um poema em formação
e não saber que escrever
para lhe dar conclusão.

Olha então para o papel
e solta um grito espantado!
O poema interrompido,
vai-se a ver, estava acabado.

Abriu um olho a formiga
e, espertinha, percebeu.

Satisfeita, regalada,
ainda mais se encolheu.

Estava agora consolada.
Tinha um destino, afinal.

Ia ser ponto final.

DJFELY
Posted: Monday, May 10, 2010 5:44:48 AM

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sklinke wrote:
Homenagem à nossa língua:


Língua Portuguesa

Olavo Bilac


Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


ola Sky
vou partilhar esta poema .
amei , e pensei se muito fixe para meu grupo no facebook.

obrigada por tudo !!
Xosé
Posted: Tuesday, May 20, 2014 6:23:26 AM
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Uma poesia da que gostei muito!

JOSEPH EMMANUEL FEIGEMBAUM


DESEMPREGO
(A meu irmão).

Acordo com as primeiras luzes
do dia.
Abro os olhos
e não sei onde mirar.
Nem a que porta
petar.
Nem por quem berrar
por apoio.
Esquecido pareço
de todos.

Não soam os timbres
do meu telemóvel,
que se não é para me ajudar,
para que serve?

Não há sindicatos,
nem igrejas que dêem
acobilho e acalmo,
às minhas necessidades.

São uma ferramenta,
bem apostada,
e sem uso.

São um verso,
sonoro,
nunca pronunciado.

São um céu azul
que ninguém vê
detrás das nuvens.

São um incompreendido
nos tempos mortos,
que são todos.







EDUARDO.B
Posted: Friday, February 1, 2019 2:52:33 AM
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Joined: 2/1/2019
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Neurons: 5
NUM FUTURO SOMBRIO



Obreiro do que é meu

Só eu sei quem sou eu

Longe de um olhar

Mais perto do que podes esperar



Comigo que contaste

E tão perto eu estive

Tu que me acompanhaste

Até me ter perdido



A vós todos que ouvis

A mensagem é pra vós

A vós mesmos que desistis

Vou vos falar de modo feroz



Emprestei minha personalidade

Até ao ponto de a ter perdido

Trabalhei para a vossa felicidade

E eu fiquei abandonado



Dei o meu melhor de mim

E ainda assim parecia pouco

Às vezes me pergunto assim

O que dirieis se estivesse morto



Dizeis ser meus amigos

Mas vejo pelo que dizeis

Que mesmo o meu pior inimigo

Me dá mais atenção que vocês



Por enquanto vou aguentando

Até quando eu nao sei

Mas em vós vou cuspindo

A ira de quem despresei



Posso parecer mais duro

Ou até mesmo insensível

Mas o meu sentimento se torna puro

Quando a dôr se torna invisível



Coração de pedra talvez

Mas estou orgulhoso de o ter

Mas prefiro ter um coração assim

Do que ser um fantoche para ti



Pensas talvez me conhecer

E eu te direi que não

Conheceste me por fora

Mas nunca viste o meu coração



A todos que vos reconheceis

Esta mensagem é para vós

Sim voces que me conheceis

Não mereceis nem a minha voz



Sou quem navega num navio

Sozinho prestes a desenbarcar

Pois prefiro meu futuro sombrio

Do que contigo andar[/b][/b][/b]
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