 Rank: Advanced Member
Joined: 3/13/2009 Posts: 71 Points: 213 Location: Brazil
|
Transcrevo adiante um texto de José Saramago que achei bem interessante acerca de tradução/escrita. Aproveitem. Comentem. O local é "O Caderno de Saramago" (http://caderno.josesaramago.org), e - para quem gosta do autor - é bom de se ler (folhear?).
Traduzir
By José Saramago
Escrever é traduzir. Sempre o será. Mesmo quando estivermos a utilizar a nossa própria língua. Transportamos o que vemos e o que sentimos (supondo que o ver e o sentir, como em geral os entendemos, sejam algo mais que as palavras com o que nos vem sendo relativamente possível expressar o visto e o sentido…) para um código convencional de signos, a escrita, e deixamos às circunstâncias e aos acasos da comunicação a responsabilidade de fazer chegar à inteligência do leitor, não a integridade da experiência que nos propusemos transmitir (inevitavelmente parcelar em relação à realidade de que se havia alimentado), mas ao menos uma sombra do que no fundo do nosso espírito sabemos ser intraduzível, por exemplo, a emoção pura de um encontro, o deslumbramento de uma descoberta, esse instante fugaz de silêncio anterior à palavra que vai ficar na memória como o resto de um sonho que o tempo não apagará por completo.
O trabalho de quem traduz consistirá, portanto, em passar a outro idioma (em princípio, o seu próprio) aquilo que na obra e no idioma originais já havia sido “tradução”, isto é, uma determinada percepção de uma realidade social, histórica, ideológica e cultural que não é a do tradutor, substanciada, essa percepção, num entramado linguístico e semântico que igualmente não é o seu. O texto original representa unicamente uma das “traduções” possíveis da experiência da realidade do autor, estando o tradutor obrigado a converter o “texto-tradução” em “tradução-texto”, inevitavelmente ambivalente, porquanto, depois de ter começado por captar a experiência da realidade objecto da sua atenção, o tradutor realiza o trabalho maior de transportá-la intacta para o entramado linguístico e semântico da realidade (outra) para que está encarregado de traduzir, respeitando, ao mesmo tempo, o lugar de onde veio e o lugar para onde vai. Para o tradutor, o instante do silêncio anterior à palavra é pois como o limiar de uma passagem “alquímica” em que o que é precisa de se transformar noutra coisa para continuar a ser o que havia sido. O diálogo entre o autor e o tradutor, na relação entre o texto que é e o texto a ser, não é apenas entre duas personalidades particulares que hão-de completar-se, é sobretudo um encontro entre duas culturas colectivas que devem reconhecer-se.
|
Rank: Advanced Member
Joined: 3/11/2009 Posts: 332 Points: 996 Location: Australia
|
Oi Gil
Excelente o seu post (traduzimos essa palavra?).
O Saramago é um gênio e está infinitamente correto ao afirmar que a tradução é "um encontro entre duas culturas colectivas que devem reconhecer-se."
Às vezes reviso traduções e o texto final é literal (e errado) pois há falta de conhecimento sobre a cultura por parte do tradutor.
Fico pensando na reação do Saramago quando assistiu à "tradução" para o cinema do livro Ensaio sobre a Cegueira.
Eu não vi o filme, você viu?
|
 Rank: Advanced Member
Joined: 3/13/2009 Posts: 71 Points: 213 Location: Brazil
|
Eu usaria tópico, e os "posts" dentro de cada tópico, verteria para comentários. A primeira idéia do significado de "post" que me vem à cabeça, sem consulta, é a de "posto", no sentido de "colocado em resposta"... daí achar que comentário cairia bem. Não vi o filme, somente li o texto (na minha classificação pessoal, entrou no grupo "literatura fantástico-fascinante"  , junto com Cortázar, Borges e outros). Em linguagens/formas de expressão tão distintas, creio que um dos principais elementos a definir o sucesso de uma adaptação do livro pro cinema é acertar a transposição do tempo, do ritmo. Quer ver um exemplo que acho primoroso? São Bernardo, do Graciliano Ramos, na adaptação do Leon Hirschman. Tem uma cena que retrata alguém tirando um cochilo numa rede, de tarde, num dia de verão, numa fazenda do interiorzão, naquele mormaço que só se encontra aqui, com direito a grilos e aquela quietude alucinante... Eu lhe garanto, é tão bem filmado que nenhuma tecnologia de interatividade conseguiria reproduzir a sensação!
|
Rank: Advanced Member
Joined: 3/11/2009 Posts: 332 Points: 996 Location: Australia
|
Não vi São Bernardo, mas vou colocar na lista. Concordo que algumas cenas são geniais e não há tecnologia que ganhe da sensibilidade. Lembro-me de ter ficado impressionada com o final de Casa de Areia (tudo bem, é a Fernanda Montenegro que está lá  ). Encontrei agora no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=NGfkaOzPA64São 7 minutos quase sem diálogo, mas encantadores.
|
 Rank: Newbie
Joined: 11/25/2009 Posts: 5 Points: 15 Location: Brazil
|
Tomei a liberdade de publicar esse texto no meu blog, que infelizmente não tenho tempo para atualizar devido aos compromissos. Obrigado por compartilhá-lo conosco.
Traduzir-se uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte - será arte? - Ferreira Gullar [Traduzir-se http://www.fabiorocha.com.br/ferreira.htm]
|